quarta-feira, 3 de novembro de 2010

As mudanças devem ser lentas e graduais!!


A verdadeira reforma deve ser feita no íntimo do ser e não na superfície da sociedade, como o fazem as revoluções!! É como subir um degrau de cada vez na escada da evolução!!

As modificações na estrutura política, econômica e social brasileira foram resultado de um processo pacífico, lento e gradual, sem alterações bruscas e violentas, ao contrário do que ocorre nas revoluções. Estas, quando se considera o contexto da Revolução Francesa e a definição apresentada por Norberto Bobbio, estão relacionadas à criação de uma nova ordem, à ruptura com o passado opressor e desigual, utilizando-se da força e da violência, visando a um novo governo libertador. A ausência de revoluções no Brasil, por um lado, tanto contribuiu para que parte da população ficasse desinteressada pela condução da política nacional, quanto para a não existência de uma forte noção de nacionalismo. Por outro lado, a não ocorrência de revoluções favoreceu a tradição pacifista e negociadora do país, além de ter contribuído para continuidade e estabilidade de suas instituições. Os riscos de uma revolução no Brasil não compensam os supostos ganhos que se reconhecem em países que passaram por processo revolucionário, de modo que a estabilidade política e a tradição pacifista são avanços que devem ser valorizados e preferidos ao caos revolucionário.
Os processos revolucionários têm como um de seus resultados o fortalecimento do vínculo entre o indivíduo e o meio que ele ocupa, de modo que aquele se reconhece como cidadão, preocupado com as diversas questões que envolvem sua nação. No Brasil, a ausência de revoluções retardou o comprometimento do povo com a política do país, de maneira que o poder público permaneceu, por vasto período, sob o controle da elite patriarcal dominante, contribuindo para reforçar o caráter paternalista das relações públicas brasileiras e permanecendo a população distante das decisões de relevância. Essa apatia do brasileiro diferia do comportamento do europeu do século XIX, pois as revoluções que tiveram curso na Europa entre os anos de 1789 e 1848 fortaleceram o sentimento nacional dos povos daquele continente e favoreceram a formação do vínculo entre indivíduo e nação, reforçado pela noção de pertencimento ao conjunto. No Brasil, por não ter havido mobilização e comprometimento em torno de um ideal patriótico e revolucionário, retardou-se a formação da consciência nacional.
O fato de não ter passado por um processo revolucionário no curso de sua história fortaleceu a identidade pacifista, negociadora e de respeito às leis e instituições políticas nacionais. A não ocorrência de modificações bruscas e violentas na ordem vigente no país foi determinante para a formação dos elementos caracterizadores do Brasil de hoje, a exemplo do princípio de solução pacífica de controvérsias, o que está relacionado ao fato de não ter havido guerra civil de grandes proporções e decorrente de um processo revolucionário, o que poderia ter dado ao país um caráter mais belicista, como ocorreu nos Estados Unidos após a Guerra de Secessão. No Brasil, tanto a proclamação da independência quanto a da república foram processos relativamente pacíficos que não podem ser qualificados como revolucionários, pois estão mais relacionados à substituição das autoridades políticas no poder e devem ser caracterizados como golpe de Estado, do mesmo modo que o golpe militar de 1964. As alterações profundas na estrutura política, jurídica e socioeconômica do Brasil foram graduais e resultantes de um processo mais amplo.
As mudanças que tiveram curso no Brasil foram lentas e ocorreram ao longo de décadas de transformação do modelo colonial e dependente, de forma que Caio Prado Júnior, já na década de 1940, afirmava que o Brasil ainda não tinha completado a transição de economia colonial para a nacional. A estrutura herdada da colonização portuguesa foi transformada no decorrer do século XX, quando o país implementou o modelo de industrialização por substituição de importações, quando se tornou mais urbano que rural, quando permitiu o sufrágio universal e, especialmente, quando passou a combater a cordialidade (na concepção apresentada em Raízes do Brasil), fazendo que a burocracia sobressaísse ao paternalismo. Observa-se que, quando Sérgio Buarque de Holanda buscou identificar os obstáculos que travaram a modernização do Brasil e procurou entender como o passado deveria ser abolido para instaurar uma ordem democrática e popular no país, ele via revolução no Brasil como processo e não na concepção de Norberto Bobbio.
Considerando-se a sociedade brasileira contemporânea, qualquer revolução, por mais nobres que sejam seus objetivos, pode desequilibrar por completo a estrutura alcançada pelo país e tirar o mesmo do seu objetivo de desenvolvimento e inserção internacional. O projeto nacional, quando pautado na democracia de representação popular, não pode sofrer os reveses de uma ruptura brusca no status quo. Historicamente, o Brasil desconhece o processo revolucionário e, mesmo assim, alcançou a estabilidade política e macroeconômica que tem hoje, apesar dos problemas de corrupção e das mazelas sociais que tendem a ser resolvidos pacificamente. De todo modo, a revolução não garante crescimento, igualdade e liberdade, sendo o respeito à normatização e às tradições do país, valores que superam o caos revolucionário.

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